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GRANDE ENTREVISTA “Dois mandatos com dificuldades e conquistas

O Presidente da Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Angra do Heroísmo (AHBVAH), Décio Santos, que se encontra na fase final do seu segundo mandato à frente dos destinos desta Associação concedeu no passado dia 7 de fevereiro uma entrevista ao Jornal “Diário Insular” acerca dos desafios da sua gestão.
 
Abaixo encontra-se a transcrição – na íntegra – dessa mesma entrevista: 

(Pode , igualmente, consultar a Versão em PDF.)
 
DÉCIO SANTOS, PRESIDENTE DOS BOMBEIROS DE ANGRA
"Emergência pré-hospitalar devia ser financiada a 100% pela região"
 
DÉCIO SANTOS. "Foram dois mandatos com dificuldades, muito esforço e, também, muitas conquistas"
 
De saída da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Angra do Heroísmo (AHBVAH), Décio Santos faz um balanço positivo dos últimos dois mandatos e alerta para os desafios futuros.
 
Termina, em breve, o segundo mandato como presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Angra do Heroísmo e não se recandidata. Que balanço faz destes seis anos?

A forma como cheguei aos bombeiros, no final de 2019, não decorreu, propriamente, de uma vontade ou projeto pessoal que cultivasse. Nessa altura, perante as ameaças de um vazio diretivo na instituição - o qual seria sempre altamente lesivo para a própria e para a ilha Terceira - fui desafiado por alguns sócios da instituição a apresentar a minha candidatura à liderança dos destinos desta prestigiada entidade, confiança que muito me honrou. Nessa época, o meu conhecimento em relação à realidade dos bombeiros era residual, todavia, sentido de missão e serviço público justificaram que aceitasse o desafio. Encontrei uma realidade muito desafiante, agravada logo em seguida pela covid-19... A associação enfrentava uma desestruturação financeira e administrativa muito evidente com imensas carências que começavam nas parcas receitas ou gestão de despesas, passando pelos recursos humanos e suas condições de trabalho a que se somavam a empreitada de remodelação e ampliação do nosso Quartel dos Altares que estava muito "desgovernada". Perante todo esse contexto foi fundamental promover a evolução do sistema de gestão organizacional para um modelo profissional, aplicando decisões, ferramentas e métodos que permitiram, tanto aumentar recursos financeiros como tornar a instituição mais eficiente em relação às suas despesas ou gestão de recursos e, em simultâneo com essas alterações, fazer aumentar tanto o número de recursos humanos como melhorar as suas condições de trabalho, investir em novos equipamentos e ferramentas, em suma, tornar a instituição mais saudável e resiliente. Foram dois mandatos com dificuldades, muito esforço e, também, muitas conquistas: Levámos a bom porto a ampliação do nosso Quartel dos Altares minimizando as derrapagens orçamentais previstas; aumentámos as nossas receitas para mais do dobro; diminuímos em cerca de 20% a despesa corrente, o que engloba tudo o que são gastos correntes como eletricidade, comunicações ou manutenção e conservação e fizemos isso assegurando sempre a operacionalidade da nossa corporação, ou seja, aumentámos a nossa eficiência; voltámos a disponibilizar serviços como a "manutenção de extintores" e diversificámos os serviços prestados e produtos comercializados registando resultados financeiros muito positivos; adquirimos novos equipamentos, viaturas, fardamento, material informático e formativo; aumentámos, ainda, a capacidade operacional do socorro ao instituir, em parceria com o município de Angra, o primeiro Grupo de Intervenção Permanente dos Açores, que permite acelerar a velocidade de resposta e, ainda que por fim, mas seguramente o mais importante, melhorámos as condições de trabalho dos nossos bombeiros, passando a cumprir com escrúpulo e rigor a legislação laboral vigente, regularizando contratos precários (recibos verdes),  instituindo serviços inexistentes quando chegámos, como eram a medicina no trabalho, melhorando os seguros e respetivas coberturas, assinando um acordo coletivo de trabalho com o sindicato representativo dos nossos bombeiros voluntários e, acima de tudo, quase duplicando o número de funcionários da associação. Quando assumimos funções, em 2019, eram 33 trabalhadores e, hoje, são 57. Por tudo o que foi até aqui exposto, naturalmente, apesar de não ter sido um trabalho "perfeito", entendemos que o balanço a fazer só pode ser muito positivo. Como último indicador, destacamos o facto de, felizmente, ao contrário de 2019, segundo as indicações que tenho, existirem agora vários interessados à minha sucessão... Isso só pode ser positivo. Há, por último, que salientar que este foi um trabalho de uma vasta equipa que me acompanhou, dirigentes, funcionários, bombeiros, prestadores de serviço, aos quais, naturalmente, muito agradeço a confiança e pela colaboração.
 
Falta de voluntários
"Os bombeiros precisam de um estatuto profissional próprio. Por exemplo, a idade de reforma dos bombeiros não pode ser 65 anos, sendo fundamental assegurar a justa valorização e proteção de risco aos bombeiros. Um bombeiro voluntário em situação de invalidez devido a uma operação de socorro não pode ficar reduzido a uma pensão de miséria".
 
Quais são os principais desafios desta instituição centenária?

Há quatro grandes desafios: (1) o financiamento da emergência pré-hospitalar (ambulâncias de socorro) que é financiado em cerca de 70% pelo Governo, tendo a associação de assegurar 30% do seu financiamento. Nós entendemos que esse serviço deveria ser assegurado a 100% pela região, ficando a associação com a responsabilidade de - com base voluntária - assegurar todo o restante socorro (fogos, acidentes, etc.); (2) assegurar a manutenção dos seus edifícios, pois, como falha a premissa número 1, a boa gestão não faz milagres e o dinheiro não chega para manutenção e conservação; (3) aumentar o número de bombeiros contratados, coisa que a associação não consegue fazer, pois não existem no mercado de trabalho bombeiros para podermos contratar, e (4) manter uma gestão profissional com base em métodos profissionais. Os bombeiros são na nossa sociedade a mais importante das instituições privadas.
 
O modelo de financiamento recentemente implementado veio dar resposta às necessidades das corporações de bombeiros?

O modelo, recentemente implementado, é um bom modelo e uma boa resposta e um bom caminho, todavia, se estivesse - a par disso - assegurado o financiamento da emergência pré-hospitalar a 100%, como referimos acima, todas as associações de bombeiros teriam condições para ser totalmente sustentáveis agora e no futuro.
 
A falta de voluntários é um problema no quartel de Angra do Heroísmo e, de um modo geral, nos Açores? Como se pode combater?

É um problema em Angra e nos Açores. Os bombeiros precisam de um estatuto profissional próprio. Por exemplo, a idade de reforma dos bombeiros não pode ser 65 anos, sendo fundamental assegurar a justa valorização e proteção de risco aos bombeiros. Um bombeiro voluntário em situação de invalidez devido a uma operação de socorro não pode ficar reduzido a uma pensão de miséria. Esse problema combate-se com respostas políticas à altura.
 
AHBVAH | Décio Santos destacou o aumento de recursos financeiros da instituição e a melhoria de condições de trabalho dos bombeiros

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